Coração de poeta

dizem que poeta
tem muitos corações.
na verdade, é um só.
partido: virou milhões.

Atestado

E o velho amargurado,
quando acordou, já tinha morrido.

No atestado, decretado:
morreu por ter a saliva engolido.

Sem escape

A morte não se endireita:
Ela fica à espreita.
Na rua estreita ou na pista larga.

Ela não se ajeita:
Pode estar tudo bem,
mas quando ela chega, estraga.

Ela não sossega:
O sabor que a morte tem
é tão forte que amarga

Ela não se importa:
Ninguém convida,
mas não se intimida e nem bate à porta.

Ela não é fraca:
Pode chegar de mansinho
ou vem de repente e te ataca.

Com ela, não tem pra depois.
Se chegou a tua vez:
quando viu, já foi.

Mágoa

lágrima
é a gota
que afaga
minha fuga

Nem te conto

Um nome de mulher bate à porta. Convida a sair. Era só o nome. Sem ninguém no lado de fora. A noite já avança a galope. Uma flecha torta quebra o silêncio gelado. Não importa mais nada. A calada avenida vagueia solitária.

Na esquina da tristeza: um bar, uma mesa. Cerveja não desce mais. O que cai é um corpo. Como um copo, mas em câmera lenta. Cambaleia, o equilíbrio tenta. Senta, mas não agüenta.

O peso dos anos, da barriga e da ausência, já não suporta mais o coração mergulhado em líquido etil-sanquíneo.

Irrompe a artéria aquela mescla de conteúdo vital com fermentação químico-natural. Não há mais o que se faça. Desgraça. A vida passa, o gato corre atrás da caça. Nenhuma ameaça. Não há trapaça. Só fumaça. Lua cheia ainda, bem-vinda! Horas a fio no meio-fio vencendo o frio.

O primeiro ônibus já anuncia a despedida. Sede e sono. “Levanta-te e anda!” Não era Cristo, nem o padre, nem o pastor. Era o dono da padaria que sugeria um novo dia.

Ensaio

Desde cedo, desde quando comecei a ter medo, queria só ser escritor.

Liberar meu verso, meu verbo, meu sujeito, minha dor.

Sou egoísta. Eu prezo o prazo, a perder de vista. Não insista.

Meu vocabulário está esgotado. Vem cheio de termos e segredos do calendário.

Quero me livrar de vez desta voz que vem, – a dois por três – e decreta:

Neste mundo é melhor ter seu próprio mundo. É melhor ser apenas poeta.

Ensaio um arremedo, mas saio cedo e deixo a janela semiaberta.

Time dos sonhos

O sonho do gandula é ser goleiro.

Do jogador: treinador.

Do atacante: artilheiro.

– E o da bola?

É dormir o dia inteiro,

tendo a rede como cobertor.

Este poema circulou (2012/2013) nos ônibus de Porto Alegre, integrando o projeto “Poemas no ônibus”, promovido pela prefeitura.

Nublado

Nesta chuva,
lembro de você.

Não de onde me conheceu
ou de como me beijou,
mas da nuvem que deixou
quando desapareceu…

Faísca atrasada

Como que, quando a gente precisa entender alguma coisa, não entende? Só depois de muito tempo fui compreender algo que era lógico. Naquele dia que perguntei pra ela o que estava acontecendo, ela me disse que estava gostando de alguém, mas que “não devia” e “não é certo”.
– Ah, é o Anselmo?
– Não.
– O Beto?
– Não…

Fui dizendo um a um os nomes dos homens da repartição, seguindo em ordem alfabética até certa altura. Depois não consegui dar sequência. Passei pelo RH, manutenção, financeiro e cheguei até cogitar o nome presidente, que foi a minha última cartada. A última opção mesmo. Foi até depois do Figueiredo, que todos sabemos cuida de um ‘sobrinho’ há anos.

Casados, solteiros e divorciados: todos entraram na lista. E todos foram eliminados da possibilidade de estar mexendo com as ideias dela. Desisti. Logo chegou mais trabalho, o tempo passou e não tocamos mais no assunto.

Saí do departamento. Casei, tive filhos e num estalo repentino, súbito como estas coisas devem ser, lembrei que a única pessoa que eu não incluí no rol dos prováveis amores dela era – quem diria? – eu mesmo.

Tarde demais. Nunca fui bom em adivinhações.

Nada pra fazer

Ainda não sei o que faço
Se esqueço você de uma vez
ou se acendo o último cigarro do maço.