Faísca atrasada

Como que, quando a gente precisa entender alguma coisa, não entende? Só depois de muito tempo fui compreender algo que era lógico. Naquele dia que perguntei pra ela o que estava acontecendo, ela me disse que estava gostando de alguém, mas que “não devia” e “não é certo”.
– Ah, é o Anselmo?
– Não.
– O Beto?
– Não…

Fui dizendo um a um os nomes dos homens da repartição, seguindo em ordem alfabética até certa altura. Depois não consegui dar sequência. Passei pelo RH, manutenção, financeiro e cheguei até cogitar o nome presidente, que foi a minha última cartada. A última opção mesmo. Foi até depois do Figueiredo, que todos sabemos cuida de um ‘sobrinho’ há anos.

Casados, solteiros e divorciados: todos entraram na lista. E todos foram eliminados da possibilidade de estar mexendo com as ideias dela. Desisti. Logo chegou mais trabalho, o tempo passou e não tocamos mais no assunto.

Saí do departamento. Casei, tive filhos e num estalo repentino, súbito como estas coisas devem ser, lembrei que a única pessoa que eu não incluí no rol dos prováveis amores dela era – quem diria? – eu mesmo.

Tarde demais. Nunca fui bom em adivinhações.