Ensaio

Desde cedo, desde quando comecei a ter medo, queria só ser escritor.

Liberar meu verso, meu verbo, meu sujeito, minha dor.

Sou egoísta. Eu prezo o prazo, a perder de vista. Não insista.

Meu vocabulário está esgotado. Vem cheio de termos e segredos do calendário.

Quero me livrar de vez desta voz que vem, – a dois por três – e decreta:

Neste mundo é melhor ter seu próprio mundo. É melhor ser apenas poeta.

Ensaio um arremedo, mas saio cedo e deixo a janela semiaberta.

Faísca atrasada

Como que, quando a gente precisa entender alguma coisa, não entende? Só depois de muito tempo fui compreender algo que era lógico. Naquele dia que perguntei pra ela o que estava acontecendo, ela me disse que estava gostando de alguém, mas que “não devia” e “não é certo”.
– Ah, é o Anselmo?
– Não.
– O Beto?
– Não…

Fui dizendo um a um os nomes dos homens da repartição, seguindo em ordem alfabética até certa altura. Depois não consegui dar sequência. Passei pelo RH, manutenção, financeiro e cheguei até cogitar o nome presidente, que foi a minha última cartada. A última opção mesmo. Foi até depois do Figueiredo, que todos sabemos cuida de um ‘sobrinho’ há anos.

Casados, solteiros e divorciados: todos entraram na lista. E todos foram eliminados da possibilidade de estar mexendo com as ideias dela. Desisti. Logo chegou mais trabalho, o tempo passou e não tocamos mais no assunto.

Saí do departamento. Casei, tive filhos e num estalo repentino, súbito como estas coisas devem ser, lembrei que a única pessoa que eu não incluí no rol dos prováveis amores dela era – quem diria? – eu mesmo.

Tarde demais. Nunca fui bom em adivinhações.

É hora de assumir

Chega um momento na vida do homem que é preciso assumir.

Não tem mais como esconder.

Já passei do tempo da negação, de relutar, de tentar disfarçar.

Não tem outro jeito a não ser, definitivamente, assumir e aceitar a atual condição.

Dizem que é culpa da genética e que essas coisas a gente não escolhe.

Também não se trata de opção, creio eu. É necessário respeitar.

Espero o respeito de vocês. Está difícil para mim. Muito difícil.

Minha família já aceitou.

Espero que vocês, meus amigos, continuem me apoiando neste momento delicado.

Vai ser uma nova fase na minha vida, uma transformação.

Muitos já perceberam, mas para alguns vai ser uma grande surpresa, uma revelação.

Essa é a dura realidade, meus amigos:

Estou ficando careca…

Um dia de cada vez

Hoje finalmente consegui esquecê-la!

Esqueci mesmo. Deixei-a para trás completamente.

Não lembro mais nem do seu telefone.

Um por um, fui esquecendo dos números daquela combinação perfeita que me ligava a ela.

E que acabei de esquecer.

Primeiro foi o nove, depois o seis e o dois.

Deixei de lado também o oito, o zero e o cinco.

Só não esqueci o quatro porque aparece no meio e repete no final.