Coração de poeta

dizem que poeta
tem muitos corações.
na verdade, é um só.
partido: virou milhões.

Atestado

E o velho amargurado,
quando acordou, já tinha morrido.

No atestado, decretado:
morreu por ter a saliva engolido.

Sem escape

A morte não se endireita:
Ela fica à espreita.
Na rua estreita ou na pista larga.

Ela não se ajeita:
Pode estar tudo bem,
mas quando ela chega, estraga.

Ela não sossega:
O sabor que a morte tem
é tão forte que amarga

Ela não se importa:
Ninguém convida,
mas não se intimida e nem bate à porta.

Ela não é fraca:
Pode chegar de mansinho
ou vem de repente e te ataca.

Com ela, não tem pra depois.
Se chegou a tua vez:
quando viu, já foi.

Mágoa

lágrima
é a gota
que afaga
minha fuga

Time dos sonhos

O sonho do gandula é ser goleiro.

Do jogador: treinador.

Do atacante: artilheiro.

– E o da bola?

É dormir o dia inteiro,

tendo a rede como cobertor.

Este poema circulou (2012/2013) nos ônibus de Porto Alegre, integrando o projeto “Poemas no ônibus”, promovido pela prefeitura.

Nublado

Nesta chuva,
lembro de você.

Não de onde me conheceu
ou de como me beijou,
mas da nuvem que deixou
quando desapareceu…

Nada pra fazer

Ainda não sei o que faço
Se esqueço você de uma vez
ou se acendo o último cigarro do maço.

Círculo

Acordado pensava nela.
Sonhando dormia com ela.
Dormindo sonhava com ela.
Pensando acordava.

Térreo

Naquele sobe e desce,

o meu andar ela nunca esquece.

Pensei em convidá-la pra sair depois,

mas o porteiro me deu uma pista:

–  O vizinho do 502

é o namorado da ascensorista.

Veneno da ausência

Em meio ao pó da solidão,
respiro o aroma da tristeza.

Degluto o amargo do desprezo,
salivando o não-alívio.

Sozinho, eu rezo
e faço um brinde
com vinho tinto.

Fico tonto
e durmo torto.