Poética

Minha semântica

é tão romântica

que não cabe

na gramática

Expressão

O café desceu forte,

quase frio e amargo.

Lentamente envolveu o nó

que na garganta eu trago.

Tudo pronto

Fiz uma cópia
da chave da porta
e, pra por na sala,
comprei um quadro
de natureza morta
agora só rezo
para que chova
na minha horta.

Cada dia

a cada dia que passa

no ar, a dor e a fumaça

o medo, o frio, o sono,

o céu e o doce abandono

tristeza e saudade devoram

mil gotas meus olhos choram

Notívago por vocação

(ou “A surdez da telha de zinco”)

Cai a noite em silêncio.
A lua cheia ilumina o lago.
O gato no muro dorme tranquilo.

As horas passam sutilmente
no relógio da parede ao lado.

No silêncio da madrugada,
como se fosse combinado,
fico sem você e te amo calado.

Faz frio

a noite gélida

geme ao ingerir a madrugada.

as horas num conta-gotas

trazem memórias à toa.

cada pingo é um lamento,

e a lágrima, um alento.

Este poema circulou (2011) nos ônibus de Porto Alegre, integrando o projeto “Poemas no ônibus”, promovido pela prefeitura.

Dificuldade

meu poema é tão complexo

que precisaria girar o avesso

converter o convexo

e dividir por dois terços

pra se entender meio verso

Este poema circulou nos ônibus de Porto Alegre em 2009 e 2010, integrando o projeto “Poemas no ônibus” promovido pela Prefeitura.

Tiro ao alvo

Traço um risco
e não arrisco

Faço um traço
e marco passo

Passos largos
em tom amargo

Sonhos trago
e trago nada

Madrugada

Vazio

O buraco é cheio de vazio no meio.

No tudo, nada falta.

No nada, falta tudo.

O muito tem um pouco a mais

O pouco tem muito menos

Lágrima

sinta o gosto do sal

da gota ardente

que fere a face

mas que não sabemos

se é pelo bem ou pelo mal