Círculo

Acordado pensava nela.
Sonhando dormia com ela.
Dormindo sonhava com ela.
Pensando acordava.

Térreo

Naquele sobe e desce,

o meu andar ela nunca esquece.

Pensei em convidá-la pra sair depois,

mas o porteiro me deu uma pista:

–  O vizinho do 502

é o namorado da ascensorista.

É hora de assumir

Chega um momento na vida do homem que é preciso assumir.

Não tem mais como esconder.

Já passei do tempo da negação, de relutar, de tentar disfarçar.

Não tem outro jeito a não ser, definitivamente, assumir e aceitar a atual condição.

Dizem que é culpa da genética e que essas coisas a gente não escolhe.

Também não se trata de opção, creio eu. É necessário respeitar.

Espero o respeito de vocês. Está difícil para mim. Muito difícil.

Minha família já aceitou.

Espero que vocês, meus amigos, continuem me apoiando neste momento delicado.

Vai ser uma nova fase na minha vida, uma transformação.

Muitos já perceberam, mas para alguns vai ser uma grande surpresa, uma revelação.

Essa é a dura realidade, meus amigos:

Estou ficando careca…

Um dia de cada vez

Hoje finalmente consegui esquecê-la!

Esqueci mesmo. Deixei-a para trás completamente.

Não lembro mais nem do seu telefone.

Um por um, fui esquecendo dos números daquela combinação perfeita que me ligava a ela.

E que acabei de esquecer.

Primeiro foi o nove, depois o seis e o dois.

Deixei de lado também o oito, o zero e o cinco.

Só não esqueci o quatro porque aparece no meio e repete no final.

Veneno da ausência

Em meio ao pó da solidão,
respiro o aroma da tristeza.

Degluto o amargo do desprezo,
salivando o não-alívio.

Sozinho, eu rezo
e faço um brinde
com vinho tinto.

Fico tonto
e durmo torto.

Poética

Minha semântica

é tão romântica

que não cabe

na gramática

Expressão

O café desceu forte,

quase frio e amargo.

Lentamente envolveu o nó

que na garganta eu trago.

Tudo pronto

Fiz uma cópia
da chave da porta
e, pra por na sala,
comprei um quadro
de natureza morta
agora só rezo
para que chova
na minha horta.

Cada dia

a cada dia que passa

no ar, a dor e a fumaça

o medo, o frio, o sono,

o céu e o doce abandono

tristeza e saudade devoram

mil gotas meus olhos choram

Notívago por vocação

(ou “A surdez da telha de zinco”)

Cai a noite em silêncio.
A lua cheia ilumina o lago.
O gato no muro dorme tranquilo.

As horas passam sutilmente
no relógio da parede ao lado.

No silêncio da madrugada,
como se fosse combinado,
fico sem você e te amo calado.