Faz frio

a noite gélida

geme ao ingerir a madrugada.

as horas num conta-gotas

trazem memórias à toa.

cada pingo é um lamento,

e a lágrima, um alento.

Este poema circulou (2011) nos ônibus de Porto Alegre, integrando o projeto “Poemas no ônibus”, promovido pela prefeitura.

Dificuldade

meu poema é tão complexo

que precisaria girar o avesso

converter o convexo

e dividir por dois terços

pra se entender meio verso

Este poema circulou nos ônibus de Porto Alegre em 2009 e 2010, integrando o projeto “Poemas no ônibus” promovido pela Prefeitura.

Tiro ao alvo

Traço um risco
e não arrisco

Faço um traço
e marco passo

Passos largos
em tom amargo

Sonhos trago
e trago nada

Madrugada

Vazio

O buraco é cheio de vazio no meio.

No tudo, nada falta.

No nada, falta tudo.

O muito tem um pouco a mais

O pouco tem muito menos

Lágrima

sinta o gosto do sal

da gota ardente

que fere a face

mas que não sabemos

se é pelo bem ou pelo mal

Nada de novo

nas horas que passam

só sinto o que já senti

das horas que virão

só não quero saudades de ti

Credo

oh, céus! até ateu

tá melhor do que eu…

Na espuma das ondas

se um dia nesse mar

eu não puder mais me banhar,

me traga um espelho e uma toalha,

um chinelo velho e uma navalha

 

Chove na Capital

Chove na capital. Espero o ônibus de sempre e, como sempre, atrasado. Não só eu, mas o motorista, o cobrador e os outros cinquenta e poucos passageiros. Sim, claro, está lotado, pra variar. Mal dá pra se acomodar e ficar de olho nas paradas.O único movimento que sentimos é a inércia, com as freadas bruscas e as arrancadas de sopetão.

Além do desconforto, a impossibilidade de se movimentar naquele aperto, algumas pessoas insistem em se levantar e atravessar o ônibus para descer só depois que o ônibus pára.

Uma etapa do sufoco passa quando desço. Mas tem uma outra batalha: atravessar a rua. Que martírio! Por mais que eu vá pra faixa de segurança, sempre fico mofando alguns minutos. E aí chego atrasado.

Não, não coloco a culpa na faixa, nem no motorista nem na outra meia centena de pessoas. A culpa é do relógio! O relógio que teima em se adiantar em relação ao horário que eu chego. Hã?  Hein?! É, deixa assim.

Às vezes o dia passa correndo, noutras se arraaaaasta. Mas é isso mesmo, tem que ser. Outra coisa que não muda é a pré-disposição do ser humano de reclamar. Se está calor, reclamam do calor e  se chove, reclamam da chuva… Já não sei de mais nada.

Ouça no player abaixo:

(Música incidental – Chove Chuva, de Jorge Benjor – cantada pela italiana Mina)